Uma breve análise do texto Picolépolis, de Rubem Alves

por Jaime Nunes Mendes < jaimenunesmendes@yahoo.com.br>

Picolépolis, muito mais do que uma narração alegórica, é um espelho que há muito vem refletindo a realidade do ensino superior no Brasil.

Durante muito tempo, “chupar um picolé”, isto é, ter um curso superior, era prerrogativa quase que exclusiva da classe mais favorecida de nossa sociedade; um privilégio que a elite brasileira ostentava com grande orgulho. Os pobres se contentavam com os “cachorros-quenntes”, ou seja, o ensino médio, os cursos técnicos e profissionalizantes etc.

É bem verdade que sempre houve universidades públicas, as quais oferecem “picolés” gratuitamente. Todavia, são exatamente estes os picolés preferidos dos ricos. “Picolés brancos”, que podemos exemplificar como os cursos mais cobiçados, por exemplo, o curso de medicina, cabem apenas ao “paladar” dos filhos desses ricos. Mesmo os “picolés vermelhos, amarelos, verdes etc. (metaforicamente os cursos menos concorridos), ainda estes, na universidade pública, eram (e ainda é) “saboreados” principalmente pelos que tinham ou têm condições de pagar por eles, uma vez que, na disputa no vestibular, estão mais preparados, afinal sempre estudaram em boas escolas desde a infância.

Sabedores dessa demanda, muitos empresaram entraram no “mercado de picolés”, buscando assim ampliar os seus lucros. Dessa forma o ensino transformou-se em mercadoria, em negócio grandemente vantajoso, ou como escreveu Rubem Alves: “um mercado maravilhoso, inesgotável… com infinitas possibilidades”. Em cada esquina há uma “fabrica de picolés”, que os oferecem em variadas cores, ininterruptamente. São cursos para todos os gostos, no horário mais flexível e com os preços mais variados.

Contudo, não obstante o número de “fábricas de picolés” ter aumentando consideravelmente, e apesar de haver picolés em número espetacular, ainda existem milhares de pessoas sem condições de adquiri-los. E o pior, mesmo os que a custo de muito esforço e economia conseguem “comprar” tais “picolés”, após “saboreá-los”, ficam com o “palito” na mão sem saber o que fazer com ele.

São milhões de diplomas entregues diariamente, os quais na sua maior parte apenas servirão como um status que será com o tempo destruído pelas traças, ou que permanecerão numa moldura como uma espécie de “honra ao mérito”, apenas isso. Os “picolés” são tantos que o mercado já está saturado deles. Como conseqüência disso, pessoas formadas em Direito, Engenharia, Economia, Jornalismo, Letras, Pedagogia etc. vão fatalmente trabalhar em restaurantes, comércio ambulante, supermercados, padarias etc. Tais pessoas, embora estejam em posse das “chaves”, não conseguem “portas” para abri-las. Têm o diploma de curso superior, mas estão impossibilitadas de ascenderem financeiramente com eles. Não sabem o que fazer com eles. Como afirmou o autor de “Picolépolis”: “As chaves que as universidades a faculdades produzem só são boas se abrem as portas de trabalho”. Do contrário servirão apenas como meros amuletos para os sonhadores.

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