Antônio Conselheiro

 

Canudos

Antônio Conselheiro, um pobre-diabo, tencionava, com ladainhas e bem-ditos, salvar a humanidade. A humanidade está sempre em perigo, na opinião de indivíduos assim. Nascido no interior do Ceará em 1835, numa família de malucos, esse infeliz foi caixeiro, negociante, escrivão. Casou e tomaram-lhe a mulher. Achou então que tudo ia errado e tratou de endireitar o mundo, o que outros menos idiotas que ele tentaram, inultimente.

Apareceu no sertão da Bahia no fim do século passado com um surrão às costas, vestido num camisão azul, barbudo, rezando, pedindo esmolas e dizendo coisas desconexas. Louco e meio analfabeto, facilmente reuniu uma considerável multidão de sujeitos menos loucos e mais analfabetos que ele, a pior canalha da roça.

Em 1876 foi preso. Em 1887 o arcebispo da Bahia, justamente alarmado com a concorrência que o idiota fazia à religião verdadeira, denunciou-o ao presidente da província, que desejou meter o homem num hospício de alienados. Infelizmente não havia lugar no asilo — e Antônio Conselheiro continou a pregar idéias subversivas e a anunciar o fim do mundo para 1900.

Antes do fim do mundo, porém, veio a República. E descobriram que ele era um monarquista perigoso. Em conseqüência mandaram agarrá-lo por trinta soldados de polícia, que foram batidos.

Organizou-se então uma força aparatosa: cem praças de linha comandadas pelo tenente Manoel Ferreira. Este ficou em Naná, a vinte léguas de Canudos, antiga fazenda transformada em arraial enorme depois que o Conselheiro fora lá viver. A 21 de Novembro de 1896, o tenente foi atacado pelos fanáticos, teve onze homens mortos e vinte feridos. Enterrou à pressa os defuntos, abandonou armas e munições, tocou fogo no povoado, deixou que a tropa debandasse e na Bahia afirmou que tinha tido uma vitória. Essa estranha vitória aumentou o prestígio do Conselheiro.

A segunda expedição do Exército enviada contra ele, sob o coando do major Febrônio de Brito, do 9º de infantaria, penetrou no sertão em dezembro, com mais de quinhentos homens, dois canhões Krupp e duas metralhadoras. Chegou a uma légua de Canudos e combateu valentemente, mas retrocedeu, admirando a coragem dos jagunços, numeros e possuidores das armas que o tenente vitorioso largara em Naná.

A terceira expedição, comandada pelo coronel Moreira César, deixou o Rio a 3 de fevereiro de 1897 e a 8 chegou a Queimadas, no interior da Bahia. Mil e trezentos soldados, quinze milhões de cartuchos, setenta tiros de artilharia. Com isso o coronel julgava fácil a empresa. Chegando a Monte Santo no dia 20, a 21 marchou para Canudos sem nenhuma preparação. Um ataque de epilepsia retardou-o por vinte e quatro horas. Levantando-se, pôs-se de novo a caminho. E com a tropa faminta, sedenta, cansada, entrou no arraial. Um desastre. Nas ruas estreitas os homens se dispersaram, foram caçados por outros que os espreitavam, emboscados. Moreira César morreu, o coronel Tamarindo, que o substituiu, morreu. Houve pânico. O armamento e a munição perderam-se.

A quarta e última expedição, sob as ordens do general Artur Oscar, dividiu-se em duas colunas compostas de quatro mil duzentos e oitenta e três soldados. A primeira, de Artur Oscar, partiu da Bahia; a segunda, chefiada pelo general Savaget, saiu de Aracaju. Encontraram-se nos arredores de Canudos, a 28 de junho. Aí já se contavam quase mil baixas. Em seguida veio a fome. Cento e oitenta cargas pertencentes à primeira coluna tinham caído quase todas em poder dos jagunços. A 18 de julho tentou-se um assalto ao arraial — e a expedição perdeu novecentos e quarenta e sete homens.

Em agosto chegou à Bahia o Ministro da Guerra, marechal Bittencourt, que em setembro começou em Monte Santo o fornecimento regular de víveres e munições.

E com os últimos contingentes recebidos, perto de três mil pessoas, sem falar numa brigada que em agosto chegou a Canudos dirigida por um major, pois numerosos oficiais haviam ficado pelo caminho, doentes, pôde Artur Costa, a 6 de outubro, arrasar a povoação. Trezentos fanáticos inúteis, velhos, mulheres e crianças renderam-se. Dos combatentes nenhum foi preso: morreram todos.

Graciliano Ramos em Pequena história da República (Alexandre e outros heróis)

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15 Respostas para “Antônio Conselheiro

  1. ODIEI A FORMA COMO DESCREVEU ANTÔNIO, APOSTO Q FOI UM HOMEM DE BEM E TENTOU AJUDAR AS PESSOAS , MORTO INJUSTAMENTE ESSA DESCRIÇÃO Q VC DEU DELE EH PECULIAR E PATÉTICA

  2. Prezada Emily, perceba que a descrição de Antonio Conselheiro foi feita por Graciliano Ramos.

    Att.,
    Gustavo T.

  3. Graciliano foi também pobre diabo.

  4. Daniel M. Melo

    Devo por aqui a minha opinião. O texto nada mais mostra que duas coisas: Uma opinião arrogante, mesmo sendo de Graciliamo ramos, acerca de história de Canudos, e a brava -e linda-história de um povo que se uniu em prol da fé, e no que acreditaram -e defenderam- ser correto. Maluco que fosse, Conselheiro reuniu um grande grupo de “adeptos” que juntos lutaram por um ideal de igualdade e fraternidade para o mundo.
    Na verdade, acredito que ainda possam surgir mais “malucos”, mais pessoas líderes renunciando suas coisas e mobilizando outras pessoas sofridas a tentar mudar ou melhorar esse mundo tão cheio de FUTILIDADE onde cada vez mais se diz SIMao corpo e NÃO à inteligência.
    Grato pela atenção.

  5. comcordo com vc Daniel M. Melo.

  6. Apesar da visão fanática do Conselheiro, residia nele um profundo sentimento a favor das massas, do quais encontravam nas palavras e ações dele, profundo conforto. Um dos poucos heróis de verdade desta história fétida do Brasil!

    VIVA ANTÔNIO CONSELHEIRO!

  7. elson joaquim lemos

    todo ser humano merece respeito, Antonio C. é um exemplo de brasileiro que não desiste nunca, parabéns aos seus decendentes…

  8. Eduardo Lira

    Decepisionei-me, por ser alagoano, com a versão dada pelo meu conterrânio Graciliano Ramos (que aliás, até então admirava-o como escritor), à história de Antônio Conselheiro. Concordo com Daniel M. Melo quando diz que o citado escritor fora deveras arrogante em suas palavras. O autor de Vidas Secas talvez quizesse que Antônio C. fosse mais um entre os milhares retirantes medrosos que aderiram ao êxodo rural para serem tratados com pena e despreso por uma sociedade hipócrita e sesacionalista às custas da miséria alheia. Viva Antônio Conselheiro por sua luta e determinação na questão da solidariedade humana.

  9. elson joaquim lemos

    Maluco ou não ANTONIO CONSELHEIRO deu um trabalhão ao exército brasileiro, já naqueles tempos ele era apenas um defensor ao direito primal do homem a terra em que vive… ou no caso sobrevive…Gostaria eu de ter a bravura de Antonio C. em lutar pelos meus direitos…Afinal remoe no meu coração as palavras de um tal de EZEQUIEL NASCIMENTO presidente do PDT DF DISSE ELE:” O Sr Elson Joaquim Lemos não É e não será candidato no PDT”, pois o pdt é o primeiro partido a se antecipar a câmara em adotar o ficha limpa…Reduzido a cidadão de segunda classe por ser ex-preso…Hoje me sinto humilhado pois vivemos em uma democracia e eu paguei todos os débitos com a justiça…Sei dos meus tantos pecados… e sei que tenho acertos com DEUS ainda…eu pedi apenas para ser candidato, afinal votaria quem quisesse…COMO SE EXISTISSE ALGUÉM QUE NÃO ERRA… SENTIU ELE NO DIREITO DE ME HUMILHAR…SE ATÉ A TODA E PODEROSA IGREJA CATÓLICA ESTA NO BANCO DOS RÉUS…Quem é ele para me humilhar…Ezequiel Nascimento presidente do PDT DF…ontém fui eu o humilhado amanhã podera ser seu filho. obrigado pelo espaço.

  10. Prezado,
    Aqui sgue a minha indignação em relação ao comentario de Graciliamo Ramos, talvez no momento em que o País estava passando o motivou descrever Antonio Concelheiro como uma figura tão terrivel,só lamento!!!Porem vejo Antonio Concelheiro um homen simoles que motivou pessoas a lutarem contra um sistema de coisas.

    Denilsom

  11. Prefiro chamar de loucos os que são formatados pelo pensamento da classe dominante, pelos meios de comunicação, e aceitam conceitos e definições sem senso crítico.

  12. Laplace Sant'Anna

    Existe um monólogo da razão sobre a loucura, já dizia Michel Foucault. A loucura tem sido, há muito tempo, silenciada pelo discurso racional: partimos do pressuposto de que o louco não tem o que acrescentar, pois sua experiência, muitas vezes, não faz parte da realidade compartilhada por nós, pessoas “normais”.

    Porém, é importante ter em mente que, como qualquer fenômeno humano, a loucura é historicamente construída. De acordo com cada época, com cada contexto sociopolítico, a loucura é definida e compreendida. fonte: http://causasperdidas.literatortura.com/2013/08/06/a-loucura-atraves-da-historia-o-que-e-ser-louco-consideracoes-acerca-da-definicao-da-loucura/

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